Wednesday, February 25, 2009

O rodo cotidiano


Foto: Dj the Lengedary cRc

Era o rodo cotidiano

Era a pistola e a marmita fria

De arroz com ovo frito

O trem lotado e o funk na ponta da língua

Mas não sou avião à toa

Na laje lá de casa

Meninos soltam pipas

E lá no Brasil da Central

O camelo-avião corre azuado

Dos cavalos corredores

Vestidos de preto

E crachás onde os nomes

ninguém consegue ler.


Ras Adauto

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Era o rodo cotidiano
(com Falcao, Maria Rita e o Rappa)



video
Tv Odia
http://mediacenter.db4.com.br/?id=1047

Monday, February 16, 2009

Um disco para reviver a música do poeta Cacaso


Cacaso foi um grande poeta e amigo que encontrei através da Heloisa Buarque de Hollanda. Na época, 1974, eu era aluno da Heloisa na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que ficava ali na Rua Chile s/n. Nós faziamos parte do dito "Movimento da Poesia Marginal", que foi muito polemico na época. Desse movimento surgiram figuras famosas como Chacal, Charles, Bernardo Villena, Chico Chaves, Ronaldo Santos, entre outros/as. Esse movimento culminou na publicacao da famosa e muito criticada antologia poética "26 Poetas Hoje", que Heloisa editou para uma editora Espanhola que se instalava no Rio de Janeiro em 1975. Sendo o primeiro livro de estréia dessa editora. A antologia 26 Poetas Hoje- marcou época ao apresentar a poesia marginal, trazendo, em plena vigência da censura, o testemunho da geração AI5 e sua dicção coloquial, irreverente e bem humorada. Uma obra clássica para os interessados em poesia contemporânea, agora revista e já em terceira edição. Participam desta edição Ana Cristina César, Cacaso, Torquato Neto, Chico Alvim, Geraldo Carneiro, Waly Salomão, Chacal, Bernardo Vilhena, Capinan, Adauto, entre outros. - Ras Adauto Berlin

Um poema meu dessa Antologia:

Urbanóide

"a mão rápida do pivete agarrou a bolsa da velha
a velha teve um troço y caiu babando na rua
rápido o pivete atravessou a Avenida Rio Branco
duas horas depois o rabecão veio buscar a velha
o sol brilhava insistentemente sobre a metrópolis"


3 Poemas de Cacaso

Descartes

Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho


Fatalidade

A mulher madura viceja
nos seios de treze anos de certa menina morena.
Amantes fidelíssimos se matarão em duelo
crepúsculos desfilarão em posição de sentido
o sol será destronado e durante séculos violas plangentes
farão assembléias de emergência.

Tudo isso já vejo nuns seios arrebitados
de primeira comunhão.


Lar doce lar
(para Maurício Maestro)

Minha pátria é minha infância:
por isso vivo no exílio

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"Em 1975 foi lançada a antologia 26 Poetas Hoje. Organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, essa coletânea reuniu a chamada "poesia marginal dos anos 70". Esse tipo de poesia começou a se desenvolver no começo daquela década, em pleno auge da ditadura (e por razão) através de textos mimeografados, outros, em offset, livrinhos com circulação bem reduzida e em conversas nos bares mais freqüentados. 26 Poetas Hoje, na época do seu lançamento, causou polêmica e recebeu críticas por todos os lados: a Academia Brasileira de Letras, por exemplo, não conseguia ver nada além de um simples valor "sociológico" naqueles "sujos’ e ‘pornográficos" versos produzidos por ilustres desconhecidos.

O discurso desses poetas, que tanto pavor causou nas ilustres letras brasileiras, era munido de cinismo, despretensão, imediatismo e de uma maneira de se expressar inteiramente coloquial e pessoal, como se o poeta fosse um amigo muito íntimo do leitor. Essas características, aparentemente gratuitas, eram peças fundamentais na construção da sua linguagem. Nessa poesia, a influência de grandes poetas brasileiros e estrangeiros, tais quais Manuel Bandeira e Baudelaire, não aparecia necessariamente em sua forma poética. Essa influência podia ser encontrada através de frases e trechos de outros poemas ou, até mesmo, de nomes desses poetas "colados" entre os versos – como uma espécie de mural onde colocamos as nossas fotos preferidas.

Depois de quase um quarto de século do seu lançamento, essa antologia, está sendo relançada, pela Editora Aeroplano, de propriedade de Heloisa."

(Jornal do Commercio / 19 de fevereiro de 1999)





"O poeta Charles, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 1986, disse que a “literatura marginal” escrita nos anos 70 está balizada por duas mortes: a de Torquato Neto (“e vivo tranqüilamente todas as horas do fim”), que marca o melancólico início, e a de Ana Cristina César (“Estou muito concentrada no meu pânico”), que chama a atenção para o gran finale de sua geração.

Nos anos de chumbo, período da ditadura militar instaurada a partir de 1964, surgiu uma geração de poetas que ficou conhecida pelo nome de “geração mimeógrafo” ou “geração marginal.” Geração mimeógrafo pela característica de produzir suas obras: edições independentes, de baixo custo, comercializado em circuitos alternativos, gerada de mão em mãos – particularmente em bares e universidades. Nesse contexto de ditadura e desbunde é que surgiu o poeta Cacaso.

Antonio Carlos de Brito, ou Cacaso, nasceu em 13 de março de 1944, Uberaba (MG), professor universitário, letrista e poeta. Depois de viver no interior de São Paulo, mudou-se aos onze anos para o Rio de Janeiro, onde estudou Filosofia e, na década de 1970, lecionou Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC-RJ. Foi colaborador regular de revistas e jornais, como Opinião e Movimento, tendo, entre outros assuntos, defendido e teorizado acerca do cenário poético de seus contemporâneos, a geração mimeógrafo, criadores da dita poesia marginal, que ganhou publicidade com a antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloisa Buarque de Holanda."

- Cacaso um Marginal Transgressor

Gilfrancisco Santos
Jornalista, pesquisador e professor universitário.

http://www.revistaetcetera.com.br/21/cacaso_gil/index.html

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Domingo, 11 Janeiro, 2009

Um disco para reviver a música do poeta Cacaso

Arquivo pessoal De todas as notícias que dei na última edição impressa da coluna Estúdio, na sexta-feira 9, a que mais me deixou feliz foi a produção de um disco em tributo a Cacaso (1944 - 1987), que, além de poeta e magnífico letrista de MPB, vem a ser também o pai de Pedro Landim, colega do jornal O DIA. Sempre curti a poesia cortante e concisa de Cacaso, letrista de músicas como Amor Amor e Face a Face, gravadas por Maria Bethânia e Simone nos anos 70, respectivamente. O CD, idealizado e produzido por Heron Coelho de seu próprio bolso para reavivar a obra musical de Cacaso, já está em fase final de gravação e sai este ano. Duas gravadoras, Biscoito Fino e Lua Music, já estão no páreo para ter o privilégio de editar o CD Cacaso - Letra e Música. O time de músicos e cantores envolvidos no disco é de primeira e inclui alguns parceiros de Cacaso como Francis Hime, Sueli Costa, Zé Renato e João Donato. Eis a lista de músicas, autores e intérpretes deste álbum muito bem-vindo:

O Terceiro Amor (Francis Hime - Cacaso) - Francis Hime
Dentro de mim Mora um Anjo (Sueli Costa - Cacaso) - Olívia Hime
Triste Baía da Guanabara (Novelli - Cacaso) - Fabiana Cozza
Meio Termo (Lourenço Baeta - Cacaso) - Cida Moreira
Lero Lero (Edu Lobo - Cacaso) - Olívia Byngton
Ribeirinho (Francis Hime - Cacaso) - Olívia Hime
Chega de Tarde (Danilo Caymmi - Cacaso) - Danilo e Dori Caymmi
Eu te Amo (Sueli Costa - Cacaso) - Renato Braz
Andorinha (Novelli - Cacaso) - Ana de Holanda, Novelli e Pií Buarque
Das Dores (Cacaso - Zé Renato) - Zé Renato
Profunda Solidão (Novelli - Cacaso) - Cristina Buarque
Canção do Desamor Demais (João Donato - Cacaso) - Miúcha e João Donato
Louvar (Zé Miguel Wisnik-Cacaso) - Ná Ozzetti e Zé Miguel Wisnik
Clarão (Olivia Byington - Cacaso) - Ana Luíza e Luiz Felipe Gama
Refém (Carlinhos Vergueiro- Cacaso) - Carlinhos Vergueiro
Amor Amor (Sueli Costa - Cacaso) - Célia e Nelson Ayres
Dono do Lugar (Edu Lobo - Cacaso) - Cida Moreira
A Fonte (Nelson Ângelo - Cacaso) -Nelson Ângelo e Joyce
Tristorosa (Villa-Lobos - Cacaso - Amélia Rabelo
Face a Face (Sueli Costa - Cacaso) - Sueli Costa

http://odia.terra.com.br/blog/estudionline/

Foto Cacaso: Arquivo Particular

Monday, February 09, 2009

Eu quero é Mel!


Foto: Ras Adauto Berlin

eu quero é mel
melado maná melancia
eu quero é o movimento
samba no pé alegria
não quero pulgas carrapatos
ou percevejos
na minha cama bem dormida
ou sugando a minha pele preta
nem vampiros rondando
minhas noites voluptuosas
beijos virtuais? – depende
eu quero é carne pura
amor de agito presente
sonhos que se dissolvem
no vinho e numa bela buceta
êxtase palavra solta
pásssaros da madrugada
a caminho do norte

eu quero é mel
morte súbita
prazer refeito nas horas
colapso viscoso
entre as pernas
daquela garota funk...