Wednesday, September 10, 2008

NOTURNA FOTOGRÁFICA



A noite se derrama serena
Em meu copo de vinho
Ao longe vem a música fina
e persistente
de um violino clássico

de luz só uma vela vermelha
que marca o compasso das horas
a calma do instante
e a lembrança de um click
que se refugiou no
inesperado momento

O que sonhas, Menino?


O que sonhas, Menino?

- com anjos alados tocando guitarras
e trombetas no Portão de Brandenburg,
numa algazarra infernal e engraçada ?

- em dragões terríveis de todas as cores
invadindo a cidade e atrapalhando
a rotina das burocracias ?

- no tal Homem-aranha subindo
pelos prédios mais altos de Nova Yorque
perseguido por um Vilão-máquina
que só existe em filmes de ação ?

- ou naquela menininha de trancas
e fitas coloridas nos cabelos negros,
que quase atropelou você com sua
bicicleta azul e seu sorriso
de Fada sininho, apaixonada
pelo Peter Pan?

Afinal, o que sonhas, Menino?

Wednesday, September 03, 2008

A Passista

Foto: Ras Adauto Berlin

A Passista se concentra para entrar em cena.

Mede a sua pulsacao e seu gingado.

Daqui a pouco os pandeiros e tambores

exigirao seu corpo monumental no palco

e todo o publico será tomado

pelo extase de sua beleza

e pelo compasso perfeitode seu samba

e a batucada ganhará o mundo

mas antes que isso aconteca

um click rouba imperceptível

um instante seu

ainda nos bastidores!

A Bela Poesia

Foto & Montagem: Ras Adauto Berlin

A bela poesia passou por aqui
essa manhã
E ainda sinto o cheiro de seu perfume nas coisas
Eu ia matar essa manhã
Num grande espetáculo privado
sem televisão ou jornais
Mas a bela poesia passou por aqui
e ficou por uns instantes
olhando-me com seus olhos de fogo
dança mel e êxtase
Aí eu não quis mais morrer à toa
e toda a minha dor se dissolveu
ao sol e aos lábios daquela
que nem sei o nome direito
e em que país habita


Friday, August 29, 2008

As Donas do Oráculo

 

Elas imaginam que podem prever o futuro
em conchas, borra de café, pedaços de marfim
Elas tão belas e teatrais
Imaginam-se as donas dos mistérios
mais antigos das matriarcas gregas
numa Casa Criativa em Berlin

O Olhar de Leon




Olha-me para seu ponto fixo
Lá onde a lente oportuna e curiosa
lhe observa
Um momento só
e um flash de luz único
e súbito
abre a porta
de um instante
mais do que eterno
Depois observe
esse seu instante
que ficou gravado
num chip qualquer
guardado no fundo
de tudo
Lá onde luz e sombras
se revelam e se
intercomunicam.

Thursday, August 28, 2008

O Retrato


Foto/colagem: Ras Adauto Berlin

O que me olha atrás das lentes
que num piscar de olhos
afunda-me num eterno freeze
apenas um click e a eternidade
é logo ali
eu nunca pensei
numa eternidade digital
ou numa possibilidade
maquiada em photoshop
mas o meu retrato está ali
sobrerano belo e aplicado
como uma poesia
que se refugia
na imagem congelada do meu rosto
apenas um silencio
nos contempla agora
e por trás de tudo
ficou aquele click oportuno
que roubou um instante de mim
e na parede do meu retrato
um espectro de um menino
também congelado em um click
passado e igual oportuno
me observa sensual

Tuesday, July 29, 2008

Tangará Tanz



Um tangará pousou em minha janela
e eu perguntei ao lindo passarinho:
o que fazes aqui, meu amiguinho,
assim tão cedo
e tão longe de sua morada?
E o passarinho, dando uns passos
ritmados e perfeitos, falou-me:
vim aqui para dançar um pouco
pra voce,
antes que seja tarde demais.
E o passarinho dançou e dançou
um perfeito bailarino ali na minha janela
e de repente se foi
e nunca mais o vi
mas sua dança ficou morando lá
dentro de mim
bailando na minha alma
para sempre.
=====================
Tangará é o pássaro bailarino
que também se chama Saíra-pintor
Dizem que é conhecido no Brasil
desde o século XVII, quando um
naturalista de nome Macgrave
se meteu pelos matos de Pernambuco
e Alagoas e topou com os primeiros
Tangarás que se tem notícias.
Os tangarás raramente pousam no chão,
passando a maior parte do tempo
nos arbustos e nas árvores.
Alimentam-se de frutas, grãos,
sementes e insetos.
Hoje estão ameacados de extinção.
O nome tangará vem do tupi tãga 'rá.
Os Guaranís, ainda hoje, reproduzem em suas aldeias
"A Danca dos Tangarás"

Tangará em Berlin é uma Academia e Agência
de Danças Brasileiras...
(Veja o vídeo do Tangará Tanz-Berlin)



Video: Ras Adauto Berlin

Thursday, July 24, 2008

Mãe Beata de Yemanjá lê e representa seus contos em Berlin


Mãe Beata de Yemanjá e o Babalorishá, seu filho,
Murah de Oyá
, Zelador do Ilé Axé Oyá, Berlin

Na sexta-feira de Obatalá, dia 18 de julho de 2008,
a Yalorișa Mãe Beata de Yemanjá leu contos de seu livro "Caroço
de Dendê" e fez uma bela performance, representando um dos contos.
O palco foi o salão do Centro Intercultural Forum Brasil e também Ilé Așe Oyá, em Berlin. O poeta Ras Adauto estava lá e fez essas imagens com o seu Handy (celular).






Foto e videos: Ras Adauto Berlin

Saturday, July 05, 2008

O Cognac Feliz



A noite desceu

com seu negro cavalo veloz

e se dissolveu

em meu copo de cognac


A bela moça

que entrou no bar

parecia saída

de uma magazine


Acompanhei seus passos graciosos

até ao balcão

- para comprar cigarros -

como olhasse

uma fotografia viva

sem nenhuma prega

de photoshop


Tomei o meu conhaque

com o maior prazer do mundo

e chamei o garçon:

por favor, meu bom,

outro cognac!


A noite e seu cavalo veloz

e a bela moça repentina

brincavam dentro de mim


O segundo conhaque

desceu redondo e quente

e eu me senti

estúpidamente feliz

e tranquilo comigo mesmo.


Saí daquele bar

assoviando um samba

até que um tiro

detonou na noite

do meu sossego.

Wednesday, June 25, 2008

Eu nasci das pedras, hoje sou um índio metropolitano!



Eu nasci das pedras
Por isso sou assim duro
como as águas dos rios
e uma onça na espreita
Tenho o gosto de todo mundo
e debaixo de minha língua
mora o sol
Ainda ontem eu era
uma nação indígena inteira
hoje sou um índio metropolitano
e no meu coração
mora o condor dos Andes

Eu nasci das pedras
e me desfolho no ar
como um segredo de pajés
que civilização ocidental nenhuma
sabe decifrar

Eu nasci das pedras
e trago dentro de mim
aquilo que o poema dos Tupinambás
e a flauta dos Kamayurá
marcaram no corpo infame
do Brasil!

Eu nasci das pedras!

Ras Adauto Berlin
26.06.2008

Tuesday, June 03, 2008

O cavalinho negro de clinas negras de seda



Era um cavalinho negro

De clinas negras de seda

Que brilhavam ao sol

E ia o cavalinho por aquele caminho

Onde passam todos as memórias

Passam todas as histórias

E todos os bichos,

desde os mais simpáticos

até os mais esquisitos

até uma onça raivosa

dizem que passou por aquele caminho

e ia por ali o cavalinho negro

de negras clinas de seda ao sol

e encontrou o menino

sentado numa pedra

bem na beira do caminho

e ao ver o cavalinho negro

de clinas negras de seda

o menino quis logo

possuir aquele cavalinho

mas o cavalinho negro

de seda as clinas negras

lhe disse com todas letras e ypsilonis

pois é, esse cavalinho falava

como as gentes

e falou com o menino

menino eu não sou

nenhum brinquedo

nem propriedade de ninguém

me deixe passar por esse caminho sossegado

pois não posso faltar ao encontro

que tenho com meus parentes

lá no por do sol

e quando o menino se deu conta

lá ia lá longe o cavalinho negro

de clinas negras de seda

sumindo no fim do caminho

em direção ao por do sol

e coube ao menino

sentado à beira do caminho

ficar imaginando que tudo

o que tinha visto e ouvido

não passava de um sonho

ou um delírio febril por causa

do sol quente que queimava

em cima de sua cabeça

mas lá longe, bem de longe mesmo

veio um relincho de cavalo

trazido pelo mensageiro do vento

que soprou de repente

naquele caminho de sol


Ras Adauto, 02.06.2008



Tuesday, February 26, 2008

O Bicho Cabeludo



O Bicho Cabeludo Labatut


O Bicho Cabeludo não mora no buraco da Alemanha

Nem nos Alpes, em Kilimanjaro ou nas matas da Amazônia

O Bicho cabeludo não é um vírus de internet

Não é um “alien” de Game ou galã de novela de televisão

O Bicho Cabeludo não tem cachorro, papagaio, girafa ou dragão

O Bicho cabeludo passeia no espelho do sonho do menino

Ou mora no medo oculto da menina que mora ali

No quarto andar do meu edifício

O Bicho Cabeludo só aparece à noite

Quando os grilos tocam seus afinados violinos

E a lua se espreguiça lá no céu

No meio das nuvens e das estrelas brilhantes.

Tuesday, January 15, 2008

O escritor e poeta Ras Adauto recomenda:


"Meine afrikanischen Lieblingsmärchen" - Nelson Mandela

("Minhas histórias infantis africanas preferidas")


Seria interessante traduzir para o portugues e publicar no Brasil.

Ras Adauto
Nijinski Arts Internacional e.V.- Berlin
www.rasadauto.blogspot.com

Tuesday, December 04, 2007

Cultura | 04.12.2007

Autores brasileiros lançam livro e audiolivro infantis na Alemanha

"A magia de Zinho" e "Kuntaré, o menino-elefante" chegam ao leitor alemão. Nas duas histórias infantis, os autores brasileiros, radicados em Berlim, buscam inspiração em elementos dos imaginários indígena e africano.

"Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens." A frase do escritor brasileiro João Guimarães Rosa é lembrada com prazer por outro João Guimarães, o autor do audiolivro infantil A Magia de Zinho.

Obra dedicada 'aos que crescem entre duas culturas'Bildunterschrift: : Obra dedicada 'aos que crescem entre duas culturas'Gaúcho radicado em Berlim há 16 anos, ele conta que começou por acaso a colecionar crocodilos e jacarés. "Quando meus filhos nasceram, resolvi escrever um livro sobre o assunto. Encontrei duas histórias da minha infância sobre jacarés. Uma delas gira em torno do personagem João, que foi trabalhar como mordomo de um homem rico em Londres e este homem era um colecionador de jacarés. Foi a partir daí que surgiu a história do Zinho, cujo texto foi criado a partir do repertório da minha infância com as ilustrações de hoje", descreve o autor.


A Magia de Zinho, um audiolivro acompanhado de booklet, chegou ao mercado através da horchideen, uma editora alemã "que se interessa, basicamente, por literatura infantil, embora o foco não seja necessariamente direcionado para o Brasil. Acima de tudo, os desenhos maravilhosos de Zinho nos convenceram, além da história e da forma como é contada", conta Yasmin Alinaghi, responsável pela publicação.


Pajelança


Uma das peculiaridades de Zinho, além do cuidado visual das ilustrações (que são, assim como o texto, assinadas por Guimarães), é a idéia de transmitir aos pequenos leitores na Alemanha detalhes da cultura brasileira, como rituais indígenas e a própria existência de um pajé, também personagem da história. Não à-toa, o autor dedica seu audiolivro "a todas as crianças que crescem entre duas culturas distintas".


Bildunterschrift:


Depois de ter sido raptado e levado por um homem para a cidade grande, onde é criado numa banheira, o jacaré Zinho acaba sendo levado de volta para o Vale do Murumuru – o momento da história em que os leitores alemães podem partilhar de uma pajelança.


Os sons da floresta que acompanham a narração no audiolivro foram extraídos de uma peça eletroacústica do compositor Eduardo Reck Miranda (brasileiro radicado na Inglaterra). A idéia, conta Guimarães, é organizar leituras para crianças, acompanhadas da reprodução dos sons, num projeto que começou em Berlim e poderá se expandir para outras cidades do país.


África como cenário


Do mesmo projeto de leituras participa também outro brasileiro radicado na capital alemã, o carioca Ras Adauto, autor de Kuntaré, o menino-elefante, um trabalho conjunto com o ilustrador cubano José Sanchez Curuneaux, editado pela Projekte-Verlag.


Bildunterschrift:


No livro, Adauto conta as peripécias dos inseparáveis Kuntaré e Kunté, um menino e um elefante, respectivamente. Situada num povoado africano, a história contém momentos de apreensão, provocados por homens armados, caçadores de marfim preparados para saquear e roubar.


Salvos pela força da água jogada pela tromba de Kunté, os dois protagonistas terminam celebrando "uma grande festa para sempre", ancorada principalmente na compreensão entre o animal (Kunté) e o homem (Kuntaré), que conseguia se comunicar com o amigo "na língua dos elefantes" (daí a suspeita de que ele seja "um elefante no corpo de um menino).



Tradições africanas, via autor brasileiroBildunterschrift: Tradições africanas, via autor brasileiro"


À primeira vista, há um certo estranhamento por parte de algumas crianças em relação ao protagonista negro Kuntaré, com seus olhos acentuados. Mas ampliar a galeria de personagens que podem povoar a imaginação infantil contribui para discutir a questão da diferença, um tema tão atual e pertinente na Alemanha", resume Adauto, que pensa, inclusive, em transformar as peripécias de seu menino-elefante num filme de animação.

Soraia Vilela

Monday, October 22, 2007

Um Africaninho e seu Elefante na Feira do Livro de Frankfurt



Um Africaninho e seu Elefante na Feira do Livro de Frankfurt

No dia 13 de outubro 2007, sábado, estivemos na „Frankfurter BuchMesse 2007“ – Feira do Livro de Frankfurt 2007, para o lançamento do nosso livrinho infantil „Kuntaré der Elefantenjung” (Kuntaré, o Menino Elefante). Lá fomos muito bem recebidos pelos editores e funcionários da Projekte-Verlag Cornélius GmbH, editora responsável pelo livro. Ficamos por um tempo no estande da Editora trocando idéias com as pessoas que apareciam, tirando fotos e sabendo melhor sobre a Verlag Cornelius. A Editora tem em seu catálogo mais de 700 obras entre ficção, literatura infanto-juvenil, história, medicina, filosofia, biografia, ciencias, artes, alimentação, geografia, ecologia. Segundo o seu editor-chefe, articula cerca de 2.000 contatos por dia. O nosso livrinho está sendo distribuido por toda a Alemanha, como é de praxe da Editora.

Depois de fazermos a apresentação de autor-presente, fomos visitar estandes brasileiras e portuguesas para orientação e contatos para a publicação do livro no Brasil e Portugal. De Portugal a que fechou melhor com o perfil do livro – uma histórinha passada na África – foi a Porto Editora . Essa tradicional editora atinge toda a África de lingua portuguesa e os representantes com os quais trocamos figirinhas ficaram empolgados com o nosso livrinho, apesar de sua publicação primeira está em língua alemã. Deixamos material com eles em portugues e até final de novembro deveremos ter uma proposta a ser estudada.

Do Brasil, fomos recebidos pelo representante da Câmara Brasileira do Livro que nos deu informações importantes sobre possíveis editoras brasileiras, as quais deveríamos recorrer para a publicação do livro.

O primeiro passo já foi dado, com a feitura e lançamento do livro na Alemanha, Mercado super exigente e muito difícil para quem é escritor estrangeiro e quer ter sua obra publicada aqui.

No dia 17 novembro de 2007, o livro será lançado em Berlin, pela ALivraria, livraria de obras brasileiras e portuguesas na Capital, dentro da Semana do Livro Berlin-Brandenburg. E no dia 20 de novembro, Dia de Zumbi dos Palmares, o livro será lançado dentro da programação dedicada às criancas de escolas na 3a. Mostra de Cinema Negro Brasileiro, no Kino (Cinema) Babylon-Berlin Mitte.

P.S.: Um agradecimento especial ao Dj Garrincha que nos cedeu o seu Cafofo, lá em Frankfurt, para que pudessemos descansar por uma noite antes de seguirmos na missão…Valeu mesmo!!!

Fotos: © Frankfurter Buchmesse

Ras Adauto Berlin
Nijinski Arts Internacional e.V.
17.10.2007


Friday, September 28, 2007

O Bambino e o Papa


O Anjo de Falconet


Como num Filme de Pasolini

É Manhã
O Papa faz seu passeio matinal
nos jardins de verao do Vaticano
Está pleno e meditativo
Um bambino se aproxima
E lhe saúda
Em sua mão há uma arma mortal

O Papa pergunta ao menino:
Como entrou aqui ?
Como é seu nome, bambino ?
O bambino nada fala
Apenas sorri
E atira 3 vezes no Papa…

Quando os cardeais chegaram
O Papa já estava morto
E o Bambino orava
Uma oração benedicta:

- “Ó Maria, concebida sem pecado!...”

Os cardeais pediram aos lixeiros
que tirassem aquele corpo dali
E elegeram o bambino
O novo Papa da Roma imperial

E toda a vez que perguntavam
O nome do bambino
Ele respondia:

- “Emanuel, o Miraculoso...”

O menino foi entronado
Com todas as pompas e honrarias
na Roma Imperial…

Um dia apareceu uma prostituta
Que se prostrou aos seus pés
E lhe lambeu as mãos e as faces…

O Papa-menino desceu do trono
Vestiu-lhe a rica capa de carmin e fios de ouro,
colocou a coroa de ouro e diamantes em sua cabeça
e lhe entregou o bastão da autoridade máxima.

Indo em direção à saída do palácio
Quando passou pelos cardeais
Apontou para a puta sentada garbosa no trono
Da Roma Imperial…:

- “Ali está a salvação, a última oportunidade de voces…”

E se foi pela Praça de São Pedro, fazer malabarismos para os turistas em meio às revoadas dos pombos e dos pedintes…

O dilema burguês ocidental


"é bom estar em qualquer lugar"
incendiou definitivamente qualquer alma
que não fosse sebosa, acreditava
enquanto dava ordens arrogantes
a seus escravos e servas

depois foi tirar férias em Mallorca
quando atendeu ao telefone da filha
que estava na África, ouviu:
- pai, fui seqüestrada por um comando rebelde
aí acabou toda sua prosa
e caiu na real do mundo

A Oxum de Berlin


um abébé
uma jóia de ouro
uma espada de cobre e bronze
a senhora das águas
veio e pediu passagem
no meio de tudo
Ora,yé yé, ó
senhora dos brilhos dourados
pássaro e peixe
de longos mistérios

Friday, June 08, 2007

O Menino da Rua


Artwork, TearsofaBlackMan

Quem é esse menino
Que me chama da rua
E tem cara de lua? …

Ele se veste de azul
E tem os pés descalços
E me fala com voz de passarinho:

- "Tiu, eu queria ter um tênis de estrelas
Ou as botas de sete-leguas daquele gato da história
Eu iria lá no ceú
Ou no fim do mundo
Buscar a felicidade para todos os meninos
E meninas que nem eu..."

E o menino da rua me pede com sua voz
De passarinho, de passarinho solto
Que nem esse menino com cara de lua:

- "Tiu, me conte uma história
Uma história assim bem bonita sua
Do tamanho de um trem veloz
Para que eu possa sonhar um pouco
E enganar a fome que ronca magra
Aqui na minha barriga."

E eu conto a história de Palmares
com todas aquelas peripécias épicas
Como se fosse um filme de aventuras
Passado no fim de um mundo de sonhos
Pro menino com cara de lua
E ele fica com os olhos cheio de estrelas
Que iluminam toda a rua…

Aí, o menino me pergunta de repente:

- "Tiu, o senhor já comeu um banquete
Daqueles imensos que o Rei come todo dia?…"

- "Eu não, menino, eu nunca comi um banquete
Desses de rei ou de barão, eu não, « passarinho »."

- "Eu já, Tiu, eu já comi à pampa num sonho meu…"

- "E o que voce quer comer agora comigo, menino da cara de lua ?"

- "Eu quero comer um pastel bem grande
E tomar um guaraná bem geladim
Depois eu vou embora pois tenho muito que andar
Por toda essa cidade do sem fim…"

Comemos os maiores pastéis do mundo
e tomamos os guaranás mais gelados da terra
E caimos na gargalhada do palhaço mais engraçado de todos
que apareceu na nossa frente puxando um automóvel de brinquedo
como se fosse um cachorro.

E antes de desaparecer como um mágico
na próxima esquina movimentada da cidade
o menino me pediu pela última vez:

- "Tiu, posso pedir uma coisa, antes de ir embora?…"

- "Pode, meu pequeno parente…"

- "Tiu, eu não tenho nome, será que eu posso me chamar Zumbi
que nem nessa história que voce contou aí?…"

- "Claro, Zumbi!!!…"

Ras Adauto, Berlin 2004