Friday, May 26, 2006

Pintura


Salvem a Natureza - Foto: Ras Adauto

Na palma da mão
Equilibra a criança o mundo
Para ela é a sua bola
E o céu um campo de jogo azul
Sobre o mundo-bola
Pousa uma borboleta
dourada e vermelha
E tudo se dissolve
Numa música só

Tuesday, May 23, 2006

A Morte e as Mortes


foto: rasadauto berlin

antigamente,
chegava-se ao cadáver exposto
sobre mesa
e o gurufin formado
e se perguntava
entre uma mordida
no bolo de tapioca
ou broa de milho
e uma talagada
"daquela que matou o guarda"
de estalar os beiços:

- foi morte morrida
ou foi de morte matada
o falecido aí na mesa?

se respondia,
quem sabe uma das viúvas:

- foi morte repentina
ele tava comendo uma rabada
e caiu duro pra trás
entalado.
é a vontade de deus!

ou respondia a mãe do defunto:

- morreu de facada
buliu com a mulher
do zé baiano
acabou com o bucho
e as tripas pra fora
é a vontade de deus!

hoje, vê-se aquela fila imensa
de cadáveres expostos
ensangüentados e furados de bala
em um beco da favela
ou no meio da cidade
em plena via pública

- quem derrubou
esses bandidos?

- ah, foi a rota, o core
foi o bope, o caveirão,
o comando geral,
o partido do crime,
os cavalos-corredores

- bem feito pra esses neguinhos
filhos-da- puta
bandido tem é que morrer mesmo
todo mundo dessa laia tem que
ir para os quintos do inferno
acabar tudo na vala

aí, ô meu! mas por favor,
não publica meu nome não, tá?
sabe como é que é, né?

Thursday, May 11, 2006

O Poema


tapies antoni brossa


O Poema é um tiro no escuro
As palavras-balas atravessam as almas desprevenidas
E bolem com elas
Algumas palavras são anjos ocultos
Para atormentarem as consciências resignadas
Muitas das vezes um deus e um demônio gêmeos
Confabulam nas entranhas do poema
Contra a humanidade dividida
Outras tantas vezes aves do paraíso
Trazem finas melodias para deleite
De quem escuta o som oculto no poema
Mas todo poema está sempre
À beira de um enorme precipício
E o poeta é o ícaro sonhador
Que se propaga no espaço do nada
e pode se arrebentar lá em baixo
no meio do vale ou das rodovias
Nas horas mais cheias da imaginação
O Poema é povoado de fantasmas
E de mortes repentinas
E de revoltas políticas
E de planos amorosos
ou farsas dantescas
O poema se embala numa rede de aranhas
Bem no centro irriquieto do mundo

Monday, May 08, 2006

Pro Secco



A Nobreza européia
virou comédia
e desfilou cheia de poses
e mesuras aristocratas
para as plébes nativas
e estrangeiras
no dia da parada gay

E falida, seguiu
pelas ruas de Berlin
acompanhada por
um samba rasgado

E aos pés do Anjo dourado de Berlin
- o Siegesaüle
a Nobreza tomou um porre
de ProSecco

Sunday, April 30, 2006

O Silencio


mujer mapuche



O silencio educa os ouvidos

E elabora a profundeza das almas

Ali falam deuses e deusas

As suas músicas mais finas

E os pajés e os griots

Confabulam com os gênios

De suas culturas primordiais;

é no silencio que Shiva, o dançarino

inventou a hatayoga

e através de uma respiração profunda

cantou seu mantra: Om namah shiva ya!

É no silencio que caminham os mortos

E se elaboram novas vidas

Nos ventres das mulheres

É ali que uma orquestra imensa

Do universo toca as musicas

Que fazem todos os seres dançarem

É no silencio onde se inicia

E termina tudo

E onde se precipitam os grandes movimentos

As vezes nas asas de uma abelha

Ou no coração de uma guerreira

Ou nas plantas da floresta da chuva.

O silencio não é só de ouro

O silencio é o emí - a respiração vital

de todas as coisas...



Ras Adauto Berlin
30.04.2006

Saturday, April 29, 2006

Objeto 10

Quase um Roteiro


warhol, andy, marilyn

A voz em off recita devagar e pausada:
(sobre uma fotografia de guerra):

uma gota de sangue.
uma palavra.
uma imagem destruída.
Uma gota de sangue.

o circo tocava uma música engraçada
as crianças riam muito e alto
a moca do trapézio era muito bela
e tinha a tez negra como uma escultura de Benin

o avo já bem senil
espiava por trás das vidraças
o desenrolar dos acontecimentos inúteis
enquanto remoia as horas
esperando o seu triste fim
e falava com o nada sobre Pancho Villa
e a revolução mexicana onde ele nunca teve

que horas são ?- perguntou o juiz da toga vermelha
o condenado respondeu: faltam duas horas
para a cadeira elétrica
e aí estarei finalmente livre de todos vocês

o sangue coagulou-se no lugar
onde varou a bala perdida
a tela da tv mostrou-se como uma janela
o americano deposita a terrível bomba mortal
na entrada da porta principal
onde dorme um morcego muito antigo

que horas são ?- perguntou a moca
meu pai e a minha mãe estão mortos

mas as crianças não pararam de rir
do palhaço gaiato dos imensos sapatos vermelhos

o presidente não tinha um dos dedos
o carro brilhante parecia voar
na parede do quarto ficou o furo da bala
e o tigre de bengala adormeceu na sala
depois de devorar toda a família
uma gota de sangue
urubus nos telhados e nas roças
mas nenhuma palavra
o terrorista explodiu quando ainda montava a bomba
que depositaria no vagão 3 do metrô em Londres

que horas são, meu amor ?
é tarde e já vou indo, chau!!!
ele desce a escada em caracol
vai assobiando uma musiquinha inventada na hora
atravessa de repente com um gato preto

- à noite todos os gatos são pardos - diz para o gato

antes da porta da saída do prédio
encontra o velho bêbado

- é o que lhe digo, meu jovem amigo:
esses americanos são uns filhos da puta!
viva a Rússia, diz o bêbado

o velho comunista fora do tempo lhe oferece
a garrafa de vodka:

- veio das estepes, da boa, legítima camponesa!

- não bebo vodka, meu negócio é cachaça, maconha e buceta!!!

- então viva a cachaça, a maconha, a buceta e viva a perestroika da Stanislawiska!

o velho bêbado senta-se no último degrau da escada
ele passa praticamente por cima do velho
abre a porta da saída
lá fora chove torrencialmente.

- porra, que merda é essa ?!...

pensa em voltar para o apartamento da puta marilyn.
olha para o velho bêbado caído no caminho.
o velho nadava emborcado em seu próprio vômito
- cheiro ácido de vodka azeda e bílis.
Sentiu nojo.

levanta a gola do casaco e sai pela chuva.
se pode ouvir no meio da sinfonia da tempestade
as risadas das crianças para o palhaço engraçado
e três tiros disparados não se sabe de onde.

Mário Quintana faz 100 anos


Mário Quintana

Em Julho de 2006
A Mário Quintana comemora-se 100 anos
Quem haveria dê ?
Enquanto procuramos
Onde estão os passarinhos
Nessa selva de pedras e metais mortais
Ele, passarada

Mário Quintana
Sentia vontade de escrever
Simplesmente
Como amar era
Quando a gente
Morava no outro

O que passa, passa
Mário Quintana, passarinho
Eu, ainda, passarada
Escravos de Jô
No mês de julho
Quando meu filho Leon
Comemora seus 7 anos
Nos cem anos
Do poeta Mário Quintana do Brasil
Pois a vida é breve
E o amor mais breve ainda
Como um passarinho

Hai-Cai Lunar

Friday, April 28, 2006

O Conselho Interplanetário


A Terra vista da Lua

O Espaço Sideral
Considerou
Em uma Grande
Assembléia Geral
Em Júpiter
A invasão
massissa
Do Planeta Terra
Para deter
Seres petulantes
Do Norte do Planeta
De E
xplodirem a Lua
Para verem
O que tem dentro


Todos, unamines
Determinaram
Que esses seres
Do Hemisfério Norte
Da Terra
São ameaças
em alto grau
para todo o
Sistema Interplanetário

Uma forca tarefa
Foi criada
Para elaborar
A proteção à
Lua e a seus habitantes,
Inclusive
a São Jorge Guerreiro
E ao Dragão.

Monday, April 24, 2006

O Meu Menino quer ser o Mickey Maus


imagem: andy wahrol

O meu menino
Me falou outro dia
Que queria ser
O Mickey Maus

Eu caí na gargalhada!

Ele me olhou sério
E perguntou-me
Com voz severa:
- Você está rindo de mim
Por que, pai?
Eu sou algum palhaço?

Eu ainda gargalhando
Segurei o seu rosto
Com todo o afeto que
Tenho por ele e respondi:
- Como você quer ser o Mickey Maus
Se você não é americano?

E o meu menino, agora
Com um sorriso maroto entre os lábios
Sujos do chocolate que comia
Retalhou:
- Mas eu posso ser um
Mickey Maus alemão
Que nasceu em Berlin!

O espelho, minha imagem e eu


As vezes me olho no espelho
E nao me reconheco
Uma luz entre meus olhos
e a minha imagem refletida
É meu passado agora que me olha
do lado do avesso
ou o meu presente que se remoe
nas horas que nao param
correndo com seu trem-bala?
Sou uma pessoa
uma sombra
uma caricatura
de quem me desenha?
me pergunto enquanto me barbeio
mas ali estou eu me vendo
ou melhor vendo um projeto
de mim
uma face que encara a outra face
do outro lado de uma dimensao absurda
enquanto meu filho me fotografa
um dia desses
dentro de um metro de berlin
amanha esterei um pouco mais velho
terei coragem de me olhar nos espelhos
ou ver meus reflexos nas vitrines
das lojas das ruas que passo?
E onde andará o meu retrato
de artista enquanto jovem?
em que esquina ficou?
em que multidao se esqueceu?
em que memória escondeu-se?
em que espelho se talhou
e lá permaneceu e eu nao sei onde?

Thursday, April 20, 2006

Paisagem Morta


Apfel = maçã


Dormes fria no prato
O antigo pecado
Ou a eterna malícia
Azedaram por completo
No tempo de quem
Te esqueceu

As moscas saúdam
Seu funeral biológico
E fazem algazarras
Em seu fim
Amanha uma mão
Indiferente e decidida
Te jogará sem piedade
Numa lata de lixo reciclado

E a imaginar que já foste
Uma intriga de deusas gregas
Símbolo de amantes sequiosos
Parábola bíblica do pecado original
Malícia da serpente primeira
Veneno de madastra má
De conto de fadas
E hoje ali te vejo
Uma maçã apodrecida
Que esquecemos de comer

Estação Noturna



Num barco à deriva sem amor
E sem rumo
Porque martelam as horas
Entre as frutas noturnas
Desse supermercado que nunca
Se fecha?

O guarda veio olhar
O que estávamos fazendo
E o cheiro da maconha
Ganhou o mundo
Enquanto Luiz Eduardo
Fudia uma puta branca e anêmica
Como uma folha de papel

Eu sabia que tudo
Podia desabar sobre
A cabeça de todo mundo
E pedi à caixa do supermercado
Que me trocasse as notas
Em miúdos
E cantei baixinho aos seus ouvidos
Uma canção que falava
De um amor bandido
Que varou a deserto do Sahara
Atrás de uma princesa etíope

A moça deu bocejos nervosos
E vi que em seus olhos
Havia o temor
Pela minha pele negra
Um signo gritante
De tantos preconceitos
E racismos
E eu lhe disse cantando ainda:
"eu não vou assaltar o supermercado nao
e a noite está que é uma beleza hoje,
Voce nao acha?"

Saí comendo um pêssego suculento
E deixei para trás
Aquela estranha paisagem
de paranóias urbanas e consumo
Cruzei com Luiz Eduardo
Fudendo ainda a branca prostituta
Que se desminlinguia em afetos
E gritos estridentes
Entre as latas de massa de tomate
Enquanto o guarda
Preparava sua pistola
Para atirar nos dois...

Monday, April 03, 2006

Poemetos


Anjo Mae Beata de Yemanjá e o Anjo
Dourado de Berlin , SiegeSaule - Foto: Ras Adauto


De uma notícia de jorna
l

Peso do céu


A imagem de uma santa caiu
sobre o prédio da Administração Regional do Ingá,
destruindo mais de cem telhas.

Padre Waldyr Noronha da Arquidiocese
Especialista em milagres e outras
Estranhezas santas
Foi chamado para atestar o fenômeno

Olhou para a santa caída no chão despedacada
Olhou para o céu, com um rombo enorme
Que não era furo na camada de ozônio
E falou para os repórteres e autoridades presentes:

- É a Nossa Senhora dos Precipícios
e vem coisa por aí...
..................................................
A Esmeralda

Meus primeiros chiliques poéticos
Aconteceram quando tinha 13 anos
E quando no segundo ano ginasial vi Esmeralda
A "mais linda menina" de todo
O Colégio Estadual Barão do Rio Branco...

Ansiosamente escrevi no meu caderno de português
O segunite poema, o meu primeiro:

"Oh, que linda Esmeralda
Oh, que bela jóia preciosa"...

Quando Dona Nair, a professora de português
Dava uma aula sobre Álvares de Azevedo
Disse nervoso e atropeladamente : "Professora, eu também
Escrevi um poema"
E mostrei os versos para ela...

Dona Nair olhou e disse:
- É sobre uma jóia, um anel?..."
......................................
Eu, um Rui Barbosa?

Quando nasci
Conta-se a lenda:
meu pai tomou um porre tão grande
Que perdeu o bonde e a vergonha
E foi parar do outro lado da cidade
e dormiu numa praça...

A todos que iam ver o seu primogênito
Meu pai dizia orgulhoso
Atrás de seu grosso bigode baiano:

- "Esse aqui vai ser um Presidente da República,
um Rui Barbosa...;
Não vai ser um operário que nem eu não,
Um tabaréu da molesta..."

Anos depois, em 1979
Entrei para o Teatro Oficina de São Paulo
E por um ano em cena aberta
Fui o Presidente Getúlio Vargas
Na peça "O Ensaio Geral do Carnaval do Povo"
Uma saga anarquista sobre a história/estória do Brasil

Parte do vaticínio de meu pai
Estava cumprido num palco de teatro...

Tuesday, March 21, 2006

Di-Poster 01


Di Cavalcanti
Di Glauber
Di Augusto
Di Anjos
Di Morte

Di Poesya
Di Nada


Marina Montini


O Globo, 21.03.2006


Morreu Marina Montini
A musa eterna e mulata
Do pintor Di Cavalcanti

(A primeira vez que Di Cavalcanti a viu
foi num imenso outdoor anunciando pneus.
Marina tinha 17 anos e era modelo.)

A primeira vez que vi uma imagem
De Marina Montini, eu era jovem e suburbano
E seu retrato, uma fotografia na revista Manchete
Me causou tanto impacto
Que fiquei sem dormir naquela noite
E também na outra noite
Remoendo um desejo enorme
Que nunca havia tido na minha vida

Foi o mesmo impacto que senti
Algum tempo depois
Quando vi a linda modelo negra Veluma
Sair esfusiante e toda colorida e brilhante
De um shopping em Copacabana
E apagar o tráfego e o sol de Copacabana
E era a primeira vez que eu ia a Copacabana

Foram imagens para sempre
Em minha alma e anima negras

Ontem Marina Montini morreu
Mas está muito viva nas eternas pinturas mulatas de Di Cavalcante
Nas imagens do filme de Glauber Rocha sobre Di Cavalcanti
No deslumbramento de Omar Shariff e Robert De Niro
No coração de tantos amantes e amigos/as
Dentro de mim e em meu poema agora...



"Mulata com Pássaro" - Di Cavalcanti

Monday, March 20, 2006

A Poesia e o seu Oculto




A poesia é necessária ou inútil?
Ela pode matar a fome de milhões de famintos pelo mundo?
A poesia pode libertar os presos de suas cadeias?
Ou pode tirar os meninos perdidos das ruas do Rio de Janeiro?

Por que escreve um poeta?
E o que leva uma pessoa como um ser humano qualquer
Se auto declarar poeta?
Quem disse a Carlos Drummond de Andrade
ou a Frederico Garcia Lorca
Que eles eram poetas?
E para que eles serviram?
Frederico Garcia Lorca foi fuzilado na Espanha
Porque era poeta?
E o poeta russo Maiakovski se matou porque
Se sentia poeta ou foi por um drama íntimo qualquer
Ou desenganado com os rumos da Revolução russa?

E eu mesmo, que nessa noite fria de Berlin
Combinando essas palavras nos teclados de um computador
Serei nesse momento um poeta?
Ou serei apenas um aflito ser que nas emboscadas
Das horas que martelam como um zug*
Nas incertezas de meus momentos mais íntimos
Ou das revoltas internas com as políticas cínicas de meu país
Persigo ser um poeta sem saber ao certo
O que isso siginifica para tantos outros dramas na humanidade?

E se uma bomba poderosa, clara e objetiva
Explodir entre os intertícios das ameaças entre o Irã e o EUA
Que poeta ainda vivo contará com palavras nucleares
A grande tragédia galopante, ardente e exterminadora ?
Que poeta será esse da humanidade e de que continente ?
Será mesmo um poeta ? O que será isso?


Fotos: Ras Adauto
Maquiagem: Westerley Dornellas

*Zug = Trem expresso alemao interestadual

O Bonde dos Meninos contra o Caveirão

Olha o Caveirao aí, gente!!!

A Infância perdida ou o Bonde dos Meninos contra o Caveirão

"Alto-falantes montados na parte externa do veículo anunciam repetidamente a chegada do caveirão: "Crianças, saiam da rua, vai haver tiroteio" ou de forma mais ameaçadora: "Se você deve, eu vou pegar a sua alma". - Fonte: Justiça Global:


“Eu quero destruir o Caveirão
Ele já matou muita gente na favela”
Diz o menino do bonde-mirim
Para o repórter do jornal O Dia

Eu quero destruir o Caveirão
O Bicho Papão nos pesadelos das crianças da favela
O menino então simula uma guerra de polícia
Sem tréguas nas vielas do morro
Com pedaços de pau
Que são seus fusis e morteiros

E dá uma ordem como um comando treinado
À sua tropa de meninos do bonde:
“Depois do destruir o Caveirão
Vamos detonar o Bope
E depois derrubar o Bisourão do Exército
Que dá rasantes na favela...”

(Ras Adauto, 19.032006)

..................................................


Foto: Agencia O Dia

No Morro da Providência, palco dos maiores conflitos entre Exército e traficantes durante as operações de busca dos dez fuzis e uma pistola roubados de um quartel, a guerra cotidiana já afeta até o imaginário das crianças. O Caveirão, carro blindado usado pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM, usado em outras operações na favela, virou recurso para as mães assustarem os filhos mais levados.

— Agora, a gente nem precisa botar as crianças de castigo. É só dizer: “Cuidado que o Caveirão está vindo”. Eles não saem de dentro do quarto de jeito nenhum — conta uma moradora da Providência que, como praticamente todos na favela, teme se identificar.

Os moradores explicam que o medo das crianças não é à toa. Nas incursões do Bope, elas seriam chamadas por policiais no alto-falante do veículo de “sementes do mal”. Na Favela Nova Holanda, como protesto, moradores montaram, no dia 22 passado, o mural da violência, repudiando o uso do Caveirão. Uma semana depois, o mural foi atingido por tiros, possivelmente, dados pela PM. Para Jailson, só o formato do Caveirão já agride:

Histórias dos cariocas que vivem na zona de guerra

Ruben Berta e Vera Araújo

http://oglobo.globo.com/jornal/rio/192330082.asp

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Rio de Janeiro: Campanha Contra o Caveirão

Enviado por mtst em Sex, 10/03/2006 - 18:01.

O caveirão e o policiamento no Rio de Janeiro:"Vim buscar sua alma"


(...) O caveirão é um carro blindado adaptado para ser um veículo militar. A palavra caveirão refere-se ao emblema do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), que aparece com destaque na lateral do veículo.

Nas operações realizadas pelo caveirão, a polícia faz ameaças psicológicas e físicas aos moradores, com o intuito de intimidar as comunidades como um todo. O emblema do BOPE - uma caveira empalada numa espada sobre duas pistolas douradas - envia uma mensagem forte e inequívoca: o emblema simboliza o combate armado, a guerra e a morte.

O tom e a linguagem utilizados pela polícia durante as operações com caveirão são hostis e autoritários. As ameaças e os insultos têm um efeito traumatizante sobre as comunidades, sendo as crianças especialmente vulneráveis. Alto-falantes montados na parte externa do veículo anunciam repetidamente a chegada do caveirão: "Crianças, saiam da rua, vai haver tiroteio" ou de forma mais ameaçadora: "Se você deve, eu vou pegar a sua alma". Quando o caveirão se aproxima de alguém na rua, a polícia grita pelo megafone: "Ei, você aí! Você é suspeito. Ande bem devagar, levante a blusa, vire... agora pode ir...".

O governo do Rio de Janeiro diz que um dos principais motivos para a utilização do caveirão é a proteção dos policiais em operações nas comunidades, mas por trás dessa justificativa, esconde-se uma ação militarizada baseada na noção da letalidade policial apresentada como eficiência, onde o "inimigo" deve ser eliminado. Encurralados entre a polícia que ataca as favelas e os traficantes que aí se instalaram, as comunidades mais pobres do Rio estão sendo vitimizadas e associadas ao crime.

A adoção dessa política de segurança pública que combate a violência com violência, utilizando uma estratégia de confrontação e intimidação, pouco colabora para a segurança dos policiais, que têm morrido muito mais fora das operações policiais, no chamado "bico" ou em episódios de vingança.

A polícia tem o direito legítimo de se proteger enquanto trabalha. Mas também tem o dever de proteger as comunidades que está servindo. O policiamento agressivo tem resultado em grande sofrimento para as comunidades pobres do Rio, bem como sua perda de confiança na capacidade do estado de manter e garantir a segurança.

A polícia mata centenas de pessoas a cada ano no Rio de Janeiro. Os padrões de investigação são baixos e, na maioria dos incidentes, os policiais envolvidos acabam impunes. A polícia declara repetidamente que as vítimas eram traficantes de drogas que morreram durante um "confronto". Oficialmente, estes episódios são registrados como autos de resistência, uma categoria abrangente que subentende o uso de auto-defesa por parte da polícia. No entanto, em inúmeros casos, existem indícios de que ocorreram execuções extrajudiciais e uso excessivo de força.

Com o caveirão, tornou-se extremamente difícil responsabilizar a polícia em casos de violência. Embora, em teoria, devesse ser possível, através de investigações balísticas, traçar a origem das balas para as armas individuais que as dispararam, na prática este procedimento não é usado e raramente são feitos exames. O anonimato dos policiais quando operam dentro do caveirão agrava o problema. Em conseqüência, os policiais atiram nas comunidades de dentro do caveirão sem medo de serem identificados e processados.

Para as organizações que promovem essa campanha, o caveirão é um símbolo poderoso das falhas da política de segurança pública do Rio de Janeiro. A segurança para todos jamais será alcançada através da violência e da intimidação. Uma política inclusiva de segurança pública, baseada em técnicas de investigação e no respeito pelos direitos humanos, tem que ser introduzida sem demora. Somente então acabará o ciclo de violência no Rio de Janeiro.

A campanha será lançada simultaneamente no Rio de Janeiro e em Londres, na próxima segunda-feira, dia 13 de março. No Rio de Janeiro, o lançamento será às 15 horas, em frente à Câmara Municipal, na Cinelândia.

A Anistia Internacional coordenará uma campanha de remessa de cartões postais à governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus. As organizações brasileiras vão coordenar a coleta de assinaturas de um abaixo assinado pedindo o fim da utilização do caveirão.

Maiores Informações: redecontraviolência@grupos.com.br | global@global.org.br

Fonte: Justiça Global:

Av. Beira Mar, 406 sala 1207

20021-900 - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: + 55 21 2544 2320
Fax: + 55 21 2524 2485



Saturday, March 18, 2006

O menino que veio da Lua


Leon Oranian, o menino com cara de Urso

O menino que veio da lua
O menino que veio da lua
O menino que veio da lua
O menino tem cara de lua
O menino que veio da lua

Ele gosta de soltar pipa
Ele gosta de jogar bola
Ele gosta de corre-corre
Ele gosta de pega-pega
Ele gosta de jogar games
Ele gosta de computador
Ele gosta de rodar pião
Ele gosta de bolinhas de gude
Ele gosta de ver televisão

O menino que tem cara de lua
O menino que veio da lua
Será que ele gosta de estudar
Será que ele gosta de ir para a escola
Ou só gosta de ficar na rua?

(com a participação especial no poema de Leon Oranian,
o menino com cara de Leão)


O menino com cara de Urso e seu amiguinho Valentin Vampirinho